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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Lenda

"Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome. À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime.

– Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

– Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim –, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.

– É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa."
 Elogio da Sombra - Jorge Luis Borges

Tô num relacionamento sério com o volume 2 das Obras Completas do Borges que peguei na biblioteca da UMC semana retrasada. E na expectativa pra edição 2013 da Festa do Livro da USP, pra ver se acho livros dele e do Cortázar em conta lá.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Travessuras da Menina Má

Quando peguei esse livro do Mario Vargas Llosa na biblioteca da faculdade, peguei também o "A Festa do Bode", do mesmo autor e sobre o qual já falei aqui. Intercalava a leitura dos dois, mas aos poucos fui gostando mais do segundo, e deixei a história do "Ricardito" Somocurcio de lado. Achei o começo chato, a história demorou a engrenar, sei lá. Acredito até que a culpa seja do Ricardito mesmo, tremendo otário...

A menina má em questão é uma camaleoa, alpinista social que topa tudo pra ter a única coisa que realmente traz felicidade e segurança na vida: dinheiro. Ela e Ricardo se conhecem ainda crianças e são muitos os encontros e desencontros dos dois. Ricardo amava tanto a peruanita (não se sabe ao certo o nome dela, de tanto que a maldita mudava de nome, de país, de marido etc.; mas o mais certo é que seu nome verdadeiro era Otília) que tolerou MUITA coisa. Na boa, chega a dar raiva (e olha que sou bem trouxa quando me apaixono).

Foi aí que deu o estalo e eu não consegui mais largar o livro: bateu a síndrome de Roberto Carlos, e eu lia embasbacada tudo o que o imbecil do Ricardo fazia e pensava "esse cara sou eu!". Piadas à parte, a paciência, o carinho, a fé, e acima de tudo, o amor desse cara eram praticamente inabaláveis, mas não consigo dizer se em algum momento ele foi correspondido pela menina má.

O trecho a seguir mostra bem o sofrimento do Ricardito "bom menino" e a desfaçatez da menina má. Não consigo me lembrar de personagem mais forte, fria e dissimulada que ela. Amei. E odiei. Leiam e tirem suas próprias conclusões.


"Cheguei à Ponte Mirabeau literalmente ensopado. Eu nem tinha notado que estava chovendo. Por ali não passavam pedestres nem carros. Avancei até o meio da ponte e sem hesitação me encarapitei na grade metálica, onde, já me preparando para pular - juro que ia fazê-lo -, senti um golpe de vento no rosto e, ao mesmo tempo, duas manzorras que abraçavam as minhas pernas, puxavam e me faziam cambalear e cair de costas, no asfalto da ponte:

- Fais pas te con, imbécile!

Era um clochard que cheirava a vinho e sujeira, meio perdido dentro de um grande impermeável de plástico que lhe cobria a cabeça. Tinha uma barba enorme, de uma cor entre cinza e esbranquiçada. Sem me ajudar a levantar, pôs a garrafa de vinho na minha boca e me fez tomar um gole: era uma coisa quente e forte, que me sacudiu as vísceras. Um vinho passado, quase vinagre. Tive ânsias de vômito mas não vomitei. Fais pas te con, mon vieux - repetiu. E, dando meia-volta, se afastou trôpego com sua garrafa de vinho azedo balançando na mão. Percebi que nunca mais esqueceria aquela sua cara amorfa, aqueles olhos arregalados e congestionados e sua voz rouca, humana.

Voltei caminhando para a rue Joseph Granier, rindo de mim mesmo, cheio de gratidão e admiração por aquele vagabundo bêbado da Ponte Mirabeau que tinha salvado a minha vida. Eu ia pular, certamente teria pulado se ele não me impedisse. Estava me sentindo estúpido, ridículo, envergonhado, e tinha começado a espirrar. Toda aquela palhaçada barata ainda ia terminar num resfriado. Os ossos das minhas costas doíam com a pancada no chão e eu só queria dormir, dormir o resto da noite e da vida. Ao abrir a porta do apartamento vi um fiozinho de luz lá dentro. Atravessei a salinha de jantar em dois pulos. Da porta do quarto divisei a menina má, de costas diante do espelho da cômoda, experimentando o vestido de bailarina árabe que eu tinha comprado no Cairo e que ela certamente nunca usara. Deve ter me ouvido chegar, mas não se virou. Era como se um fantasma houvesse entrado no quarto.

- O que está fazendo aqui? - disse, gritei ou rugi, paralisado na entrada, sentindo que minha voz soava muito estranha, como a de um homem sendo estrangulado.

Com muita calma, como se nada estivesse acontecendo e toda aquela cena fosse a coisa mais corriqueira do mundo, a figurinha morena, seminua, envolta em véus, de cuja cintura caiam umas fitas que podiam ser de couro ou correntinhas, virou-se de lado e olhou para mim, sorrindo:

- Mudei de idéia e estou de volta. - Falava como se me contasse uma intriga de salão. E, passando para coisas mais importantes, apontou o vestido e explicou: - Estava um pouco grande, mas acho que agora ficou bem. Como cai em mim?

Não pôde dizer mais nada porque eu, não sei como, atravessei o quarto num pulo e a esbofeteei com todas as minhas forças. Vi um brilho de pavor nos seus olhos, vi que ela oscilava, tentava se apoiar na cômoda, caia no chão e depois dizia, ou talvez gritasse, sem perder totalmente a serenidade, aquela sua calma teatral:

- Você está aprendendo a tratar as mulheres, Ricardito.

Eu tinha caído no chão junto com ela e a sacudia pelos ombros, enlouquecido, vomitando meu despeito, minha fúria, minha estupidez, meus ciúmes:

- Eu só não estou agora no fundo do Sena por milagre, e a culpa é sua, só sua - as palavras se atropelavam na boca, minha língua travava. - Nestas últimas 24 horas você me fez morrer mil vezes. De que está brincando comigo?, diga. Foi para isso que me ligou, que me procurou, quando eu já tinha me libertado de você? Até quando acha que vou agüentar? Eu também tenho meus limites. Dá vontade de matar você.

Nesse momento percebi que, de fato, poderia matá-la se continuasse sacudindo a menina má daquele jeito. Assustado, soltei-a. Ela estava lívida e olhava para mim, de boca aberta, protegendo-se com os braços levantados.

- Não estou reconhecendo, este não é você murmurou, e sua voz sumiu. Começou a massagear a bochecha e a têmpora direita que, à meia-luz, pareciam inchadas.

- Estive a um triz de me matar por sua causa - repeti, com a voz impregnada de rancor e de ódio. - Subi no parapeito da ponte para me jogar no rio e um clochard me salvou. Um suicida, era o que faltava no seu currículo. Você pensa que vai continuar brincando assim comigo? Parece que só matando um de nós dois vou conseguir me libertar para sempre.

- Mentira, você não quer se matar nem me matar - disse, arrastando-se na minha direção. - Você quer é trepar comigo. Não é mesmo? Eu também quero. Ou, se esse termo o incomoda, quero que faça amor comigo. Era a primeira vez que ouvia esse palavrão na sua boca, um verbo que não escutava fazia séculos. Ela tinha se erguido um pouco para se acomodar nos meus braços e apalpava a minha roupa, escandalizada: "Você está todo encharcado, vai pegar um resfriado, tire logo essa roupa molhada, bobinho."

 "Se você quiser, me mata depois, mas faça amor comigo, agora mesmo." Tinha recuperado a serenidade e agora já era dona da situação. O coração quase me saía pela boca, eu mal podia respirar. Pensei que seria idiota ter um ataque justamente nesse momento. Ela me ajudou a tirar o paletó, a calça, os sapatos, a camisa - tudo parecia ter saído de dentro d'água - e, enquanto isso, passava a mão pelo meu cabelo na estranha, única carícia que às vezes se dignava a me fazer. "Como bate o seu coração, bobinho", disse, instantes depois, encostando a orelha no meu peito. "Fui eu que deixei você assim?" Eu também tinha começado a acariciá-la, antes mesmo de ter dominado a raiva. Mas esse sentimento se misturava agora com um desejo crescente que ela atiçava - tinha tirado o vestido de bailarina e me enxugava, deitada em cima de mim, movendo-se sobre o meu corpo - enfiando a língua na minha boca, fazendo-me engolir sua saliva, apanhando meu sexo, acariciando-o com as duas mãos e, por fim, encolhendo-se como uma enguia sobre si mesma, levando-o à boca. Eu a beijei, acariciei e abracei sem a delicadeza das outras vezes, mas com rudeza, ainda ferido, dolorido, e por fim obriguei-a a tirar o meu sexo da boca e ficar embaixo de mim. Abriu as pernas, docilmente, quando sentiu que meu membro rígido lutava para entrar nela. Penetrei-a com brutalidade e a ouvi uivar de dor. Mas não me rejeitou e, com o corpo tenso, esperou, soltando queixumes, gemendo baixinho, que eu ejaculasse. Suas lágrimas molhavam a minha cara e eu as lambia. Ela estava extenuada, com os olhos arregalados e o rosto transfigurado de dor.

- É melhor você ir embora, sumir de verdade - implorei, tremendo dos pés à cabeça. - Hoje estive a ponto de me matar, e depois quase matei você. Não quero isso. Vá, procure outro, alguém que faça você viver intensamente, como Fukuda. Alguém que chicoteie você, que a empreste para seus asseclas, que a faça engolir pós e depois soltar peidos no seu focinho imundo de porco. Você não foi feita para morar com um santarrão chato feito eu. Ela havia passado os braços em volta do meu pescoço e me beijava na boca enquanto eu falava. Todo o seu corpo se movia para ajustar-se mais ao meu.

- Não vou embora, nem agora nem nunca - sussurrou no meu ouvido.

- Não me pergunte por quê, não vou dizer nem morta. Jamais vou dizer que amo você, por mais que ame.

Nesse momento devo ter desmaiado, ou dormido de repente, mas já desde suas últimas palavras eu sentia que as forças me abandonavam e tudo começava a girar. Acordei muito depois, no quarto às escuras, sentindo uma forma morna metida dentro de mim. Estávamos deitados, debaixo dos lençóis e cobertores, e pela clarabóia do teto vi umas estrelas cintilando. Havia parado de chover há muito tempo, sem dúvida, porque os vidros já não estavam embaçados. A menina má continuava grudada no meu corpo, com as pernas enredadas nas minhas e a boca encostada na minha bochecha. Senti seu coração; pulsava, compassado, dentro de mim. A cólera havia evaporado e eu agora estava cheio de arrependimento por tê-la agredido e magoado, apesar de amá-la. Beijei seu rosto com ternura, tentando não acordá-la e sussurrei bem baixinho em seu ouvido: "Amo você, amo você, amo você." Não estava dormindo. Apertou-se contra mim e disse, colocando os lábios sobre os meus, enquanto sua língua bicava a minha entre uma palavra e outra:

- Você nunca vai viver sossegado comigo, estou avisando. Porque não quero que você se canse de mim, que se acostume comigo. Vamos nos casar para arrumar meus papéis, mas nunca serei sua esposa. Quero ser sempre sua amante, sua cachorra, sua puta. Como esta noite. Porque assim vai ficar sempre louquinho por mim.

Falava essas coisas me beijando sem trégua e tentando se meter inteira dentro do meu corpo
."
 Mario Vargas Llosa*

* Achei essa entrevista do Llosa, concedida à época do lançamento do livro, pra Folha. Tô lendo mais um livro dele "Pantaleão e as Visitadoras", e conto mais sobre ele quando terminar.  


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Uns braços


"[...] Um domingo, — nunca ele esqueceu esse domingo, — estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal. 
Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal. 
Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.
D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dous, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. "Uma criança!" disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos. "Uma criança!"
E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, — dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, — ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calefrio.
Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:

— Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.
— Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
— Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.

Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem!falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra cousa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos...
Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana: 
E foi um sonho! um simples sonho!"

Machado de Assis

Fonte da imagem: Polifonias
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Todo o Mundo e Ninguém

"Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:

Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
                         delas não posso achar,
                         porém ando porfiando
                         por quão bom é porfiar.

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
                         e meu tempo todo inteiro
                         sempre é buscar dinheiro
                         e sempre nisto me fundo.

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
               e busco a consciência.

Belzebu: Esta é boa experiência:
             Dinato, escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei, companheiro?

Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
              e Todo o Mundo dinheiro.

Ninguém: E agora que buscas lá?

Todo o Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
               que tope com ela já.

Belzebu: Outra adição nos acude:
              escreve logo aí, a fundo,
              que busca honra Todo o Mundo
              e Ninguém busca virtude.

Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
                         tudo quanto eu fizesse.

Ninguém: E eu quem me repreendesse
               em cada cousa que errasse.

Belzebu: Escreve mais.

Dinato: Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
              Todo o Mundo ser louvado,
              e Ninguém ser repreendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu?

Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
               a morte conheço eu.

Belzebu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
              Todo o Mundo busca a vida
              e Ninguém conhece a morte.

Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
                         sem mo Ninguém estorvar.

Ninguém: E eu ponho-me a pagar
               quanto devo para isso.

Belzebu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Belzebu: Escreve
              que Todo o Mundo quer paraíso
              e Ninguém paga o que deve.

Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
                         e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre verdade digo
               sem nunca me desviar.

Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
              não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
              E Ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais buscas?

Todo o Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá, mano.

Dinato: Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aí mui declarado,
              não te fique no tinteiro:
              Todo o Mundo é lisonjeiro,
              e Ninguém desenganado."

sábado, 2 de novembro de 2013

O lugar das definições

Ainda na pegada de citar aqui meus livros favoritos. A passagem desse post é de um livro já mencionado no blog, o "Hell's Angels", do porralôca Hunter S. Thompson.

Já tava a fim de postar esse trecho aqui há um tempo. Pra mim, ele é a síntese de tudo o que eu imagino que um texto tem que ter pra fazer o leitor viajar. Porra, livro tem que fazer isso: você tem que ler e se imaginar lá onde tá rolando a história, e reconhecer as personagens como se fossem velhas conhecidas suas, e sentir sabores e cheiros e alegrias e medos; e rir em cumplicidade com o autor ou das histórias e situações, chorar nas passagens tristes da narrativa e, claro, sentir um ódio mortal dos vilões e personagens antipáticos. E quando acabar, tem que te fazer refletir sobre tudo o que acabou de ler. E pensar: na história, no rumo que cada personagem tomou, e o que você faria se estivesse no lugar de um deles (ou, por que não?, no lugar do autor). E depois de pensar muito, e saborear as últimas palavras, se despedir dele com um suspiro e soltar um "que livro foda!", com a certeza de que vai levar pra vida pelo menos um trechinho dele.

Desse livro do Thompson, esse é o trecho que vou levar pra vida. Uma passagem bem escrita, emocionante, excitante...Tava no trem de manhã, indo pro trabalho, e esse trecho me levou pra longe dali, pra onde só voltei quando já estava chegando na estação em que ia descer. E eu fechei o livro e "Caralho...caralho, que livro foda...", e não queria terminar (faltava o posfácio, de uma folha só). Como doeu me despedir desse livro...

Sem mais delongas, minha passagem favorita do "Hell's Angels". Prestem atenção na forma como ele descreve esse rolê de moto durante a noite. É SÓ UM ROLÊ DE MOTO. Mas vejam como ele narra esse rolê, o que ele sente, o que ele vê, e o que ele extrai das sensações experimentadas por ele nesses passeios noturnos suicidas. Eu morro de medo de motos mas fiquei louca de vontade de fazer um rolê desse. Só se for de Harley, claro.


"Toda a minha vida meu coração buscou
 algo que não sei nomear.
Verso lembrado de um poema   
esquecido há muito tempo   

Meses depois, quando dificilmente via os Angels, eu ainda tinha o legado da grande máquina: 180 quilos de cromo e um ruído enfurecido para ir à Coast Highway e sair sem rumo às três da madrugada, quando todos os policiais estavam espreitando a Rodovia 101. A minha primeira batida havia acabado totalmente com a moto e foram necessários alguns meses para reformá-la. Depois disso decidi andar de um jeito diferente: ia parar de abusar da sorte nas curvas, usar sempre o capacete e tentar me manter próximo do limite de velocidade...meu seguro já havia sido cancelado e a minha carteira de motorista estava por um fio.
Então era sempre de madrugada, como um lobisomem, que eu saía com a coisa para um passeio decente pela costa. Eu começava no Golden Gate Park, pensando apenas em percorrer algumas longas curvas para esfriar a cabeça...Mas, em questão de minutos, eu estava na praia com o som dos motores nos meus ouvidos, as ondas arrebentando no quebra-mar e uma bela estrada vazia que ia até  Santa Cruz...nem sequer um posto de gasolina num trecho de cem quilômetros. A única iluminação pública no caminho é a de uma lanchonete 24 horas perto da praia de Rockaway [nota da blogueira: nessa parte eu penso nos Ramones]. Nessas noites não havia capacete, limite de velocidade e nada de pegar leve nas curvas. A sensação de liberdade momentânea do passeio no parque era como o drinque infeliz que faz o alcoólatra hesitante ter uma recaída. Eu saía do parque perto do campo de futebol, fazia uma breve pausa diante da placa de "pare" e me perguntava se conhecia alguma daquelas pessoas que estavam dentro dos carros estacionados na faixa da trepada da meia-noite.
Depois eu colocava a primeira marcha, esquecia os carros e deixava a fera se soltar...60, 70 km/h...depois a segunda, resmungando para passar pelo sinal da Lincoln Way, sem me preocupar se estava verde ou vermelho, mas apenas atento a algum outro lobisomem maluco que estivesse saindo, devagar demais, para começar sua jornada. Não há muitos...e, com três pistas numa curva ampla, uma moto vindo com tudo tem muito espaço para desviar de quase qualquer coisa...depois a terceira, a marcha da potência, chegando a 120 km/h e ao começo dos gritos estridentes do vento no ouvido, uma pressão no globo ocular como um mergulho na água de um trampolim bem alto.
Inclinado para a frente, sentado na parte de trás do banco e segurando firme o guidão quando a moto começa a tremer e sacudir no vento. Luzes traseiras muito distantes se aproximam rápido e, de repente - zaaapppp -, passo e inclino a moto numa curva perto do jardim zoológico, onde a estrada abre para o mar.
As dunas são mais planas aqui e, nos dias em que venta muito, a areia atravessa a rodovia, aglomerando-se em depósitos espessos tão fatais quanto qualquer óleo na pista...perda de controle instantânea, uma batida, derrapagem e capotagem, e talvez uma daquelas notinhas de cinco centímetros no jornal do dia seguinte: 'Um motociclista não identificado morreu ontem à noite por não conseguir transpor uma curva na Highway I'.
É verdade...mas dessa vez não havia areia, então o pedal vai para cima, para a quarta, e agora não se ouve nenhum som a não ser o do vento. Todo esticado, tateando o guidão para elevar o feixe do farol, o ponteiro encosta no 160, e os globos oculares ardentes lutam para enxergar o centro da pista mesmo com a pressão do vento. É preciso deixar uma margem para os reflexos.
Mas com o acelerador no máximo a margem é muito pouca, e não existe nenhuma possibilidade de erro. Tudo tem que ser feito certo...e é aí que a música estranha começa, quando você abusa tanto da sorte que o medo se transforma em alegria e vibra pelos seus braços. A 160 km/h, mal dá para enxergar, as lágrimas são jogadas para trás tão rápido que evaporam antes de chegarem às orelhas. Os únicos sons são o do vento e um zunido surdo que vem dos amortecedores. Você vê a linha branca e tenta virar junto com ela...urrando numa curva para a direita, depois para a esquerda e na longa descida para Pacifica...menos intenso agora, atento para a presença da polícia, mas só até o próximo trecho escuro e mais alguns segundos no limite...O Limite...Não existe nenhuma forma genuína de explicá-lo porque as únicas pessoas que realmente sabem onde ele está são aquelas que o ultrapassaram. As outras - as vivas - são as que forçaram seu controle até onde sentiram que podiam aguentar, e depois recuaram, ou reduziram a velocidade, ou fizeram o que quer que tinham que fazer quando chegou o momento de escolher entre o Agora e o Depois.
Mas o limite ainda está Lá. Ou talvez Aqui. A associação que se faz entre motocicletas e LSD não é um acidente de publicidade. Os dois são meios para se chegar a um fim, ao lugar das definições."

Fonte da imagem: Visual Diary

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Basílio

Hoje é Dia Nacional do Livro, e eu tava aqui mexendo nos meus. Às vezes tenho vontade de, ao invés de escrever as merdas que escrevo aqui, só transcrever trechos dos meus livros favoritos. Só trechos, só excertos, sem bancar a escritora, nem me meter a criticar/resenhar nada. Bem provável que faça isso em breve.

Aí eu peguei um dos meus livros favoritos hoje, e tirei foto do trecho mais famoso dele, que transcrevo abaixo:


"E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma,e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

Falei que esse é o trecho mais famoso dele porque todo mundo já ouviu essa música:


"O Primo Basílio" é um livro cuja história parece manjada demais, mas ainda assim prende a atenção, emociona, envolve, revolta. O Basílio foi o primeiro canalha da minha vida, vai ver por isso esse livro é tão marcante pra mim.

O trecho transcrito acima tá na página 99 do meu livro, que é aquele da coleção que a Folha de São Paulo lançou séculos atrás.


Como esse post é só pro Dia Nacional do Livro não passar em brancas páginas, e eu disse que ia me limitar a transcrever sem opinar, paro por aqui. Não vou (não hoje, pelo menos) dizer o que penso a respeito da heroína do romance, a Luísa, do marido Jorge e do primo-amante-sacana Basílio. Mas é incrível como a história continua atual, se não pelo drama da traição, pelo desfecho trágico dos amores infelizes.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Neruda

E vamos pra mais algumas falsas citações? Gostei dessa que vi no Facebook:


No entanto, segundo o site "Recanto das Letras", Neruda nunca disse isso. Também fiz minha pesquisa e nada encontrei. Mais uma que vai pro repertório do Autor Desconhecido.

Vou me abster de comentar a respeito da frase. Concordo, tem que ser reflexo, blah blah fuckin' blah. Meio óbvio. Ama quem te ama e esquece quem te esquece. Foda-se.

Mas o que me chamou a atenção é que, na semana em que vi essa citação, fez 40 anos que o Neruda morreu. Ele morreu dias depois do golpe de estado do Pinochet aquele puto, e assim como o aniversário do golpe não passou batido, o aniversário da morte dele também não. Pelo menos, diziam que era esse o intuito de geral compartilhando citação que não é dele nazinternétis naquele dia.

Uma homenagem, no entanto, me chamou a atenção. Diz que Gabo, meu amor, uma vez falou que Neruda foi o melhor poeta do século XX em qualquer idioma. Aí, a BBC reuniu repórteres dos 21 idiomas nos quais transmite o Serviço Mundial para recitar o Poema 15, uma das obras mais conhecidas do poeta chileno. E não é que Gabo tinha razão? Ficou lindo.



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mas antes

"Ela saiu de casa batendo a porta. Mas antes, ele tinha mandado ela tomar no cu. Mas antes, ela tinha pedido que ele pelo menos limpasse a merda que fez. Mas antes, ele tinha derramado vinho no tapete. Mas antes, ela tinha duvidado de que ele derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ele tinha dito que derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ela tinha dito que a culpa não era dela de ele não ter um emprego. Mas antes, ele tinha dito que ela não precisava jogar na cara que ele não tinha dinheiro nem para comprar um tapete. Mas antes, ela tinha dito que a mãe dela merecia respeito, afinal de contas era ela quem tinha mobiliado o apartamento, do ventilador ao tapete. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela era uma vaca. Mas antes, a mãe dela tinha saído do apartamento batendo a porta. Mas antes, ele tinha pedido que a mãe dela saísse, de preferência sem bater a porta. Mas antes, a mãe dela tinha dito que ele estava mais gordo. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela estava mais velha. Mas antes, a mãe dela perguntou se ele tinha conseguido o emprego. Mas antes, ele disse que a mãe dela chegar de surpresa era só o que faltava. Mas antes, a mãe dela tinha chegado de surpresa. Mas antes, eles tinham se beijado e pedido desculpas e prometido que não iam brigar. Mas antes, ele perguntou por que é que nada que ele faz nunca está bom. Mas antes, ela tinha reclamado que ele não sabia nem abrir um vinho. Mas antes, ele tinha tentado abrir um vinho. Mas antes, ela tinha sugerido que ele abrisse o vinho. Mas antes, eles tinham se beijado. Mas antes, eles tinham deixado os filhos na casa da irmã dele. Mas antes, eles tinham dito que seria uma noite linda. Mas antes, eles tinham passado no supermercado e comprado o melhor vinho. Mas antes, ela tinha dito que tinha muito orgulho do marido que ele era. Mas antes, ele tinha chorado porque não era assim que ele se imaginava aos 35. Mas antes, ele tinha sido recusado na entrevista de emprego. Mas antes, ela tinha dito que confiava cegamente nele. Mas antes, ele tinha dito que era só uma entrevista de emprego, e que nada estava certo ainda. Mas antes, eles tinham combinado de comemorar as duas coisas, o aniversário e o emprego novo. Mas antes, eles tinham acordado e percebido que, naquela noite, eles iriam comemorar sete anos juntos. Mas antes, eles tinham sido felizes. Isso antes."
Gregorio Duvivier é ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos

* Só fiquei sabendo hoje que o Gregorio Duvivier agora é colunista da Folha.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma arte

"A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.
"
                   Elizabeth Bishop           

Uma amiga compartilhou no Facebook, e depois vi o Fabrício Carpinejar recitando esse poema na fanpage dele. Fui atrás de saber mais sobre a Elizabeth e achei essa matéria da Piauí sobre ela. Fiquei sabendo também sobre um filme do Bruno Barreto, o "Flores Raras", contando um pouco da história de Bishop, que morou durante um tempo aqui no Brasil. Falo mais a respeito quando assistir.



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Da solidão

"Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais". 
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão. 
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre."
   Vinícius de Moraes         
  

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Polêmicas, poesia & música do Diabo

Revisitando clássicos, revendo conceitos, relendo cartas que escrevi sem nunca ter pretendido mandar pra quem nem sei mais por onde anda.

Vinho barato e Jorge Luis Borges, entre polêmicas internéticas e episódios de "a vida como ela deveria ser" direto do meu Facebook (todo mundo é tão apaixonado e politicamente engajado e feliz e educado e culto no Facebook). Entre um poema e outro, um copo e outro, fico tentando entender o que tem de tão alarmante no selinho que o jogador de futebol trocou com a médica cubana que posou na Playboy sem se depilar porque era contra o Revalida. É isso, produção?


What a shame, what a shame (depois me perguntam por que não insisti no jornalismo...).


Quando pentelhos e cus e xenofobia ocupam tanto espaço no noticiário e nas redes sociais, você percebe que na verdade não tá perdendo muito.

E estudar? Até tento, mas a memória não ajuda. Quando procuro e acho as leis nº 11.340/06 e nº 11.343/06, minutos depois já não sei qual é a Maria da Penha e qual é a dos Tóxicos. Tenho duas provas de concurso pra estagiário: Defensoria e TRT: alea jacta est. Afinal, eu manjo dos paranauê jurídico pero no mucho.

Aí fico pensando que talvez eu leia demais. Schopenhauer diz que ler muito é que nem usar peruca: é adornar a cabeça com cabelo alheio. Você não pensa, você não cria. Tudo o que você tem na cabeça foi o que outra pessoa pensou e criou antes de você. Isso é mais polêmico que pentelho e cu, vai. Você, que é conhecida por ler pra caralho, ter livro pra caralho, dar de cara com um autor um dia, num pocket book que você comprou não lembra nem quando, dizendo "leia menos, filha da puta! bota essa cabeça pra pensar!". E a neura de emburrecer, como o Schop fala que a gente emburrece se lê muito? Já ia meter outra citação das trocentas mil que eu sei. Tá vendo?! Schop tem razão! Uso peruca! Sou tipo a Elke Maravilha, de tanto cabelo alheio diferente que eu tenho!



E o Norman Mailer aqui me esperando há séculos. Ninguém mandou ficar enfeitando tanto, dizendo o quanto a Marilyn era o doce anjo do sexo que ele e todos os homens heterossexuais estadunidenses queriam ter comido. Fora as conjecturas. Mailer e seus "talvez". Me irritou, deixei na bolsa, trombei com o Jorge Luis Borges um dia nas estantes empoeiradas da biblioteca da UMC e...Agora ele tá aqui na minha cama, me dizendo coisas bonitas.



Tenho essa teoria sobre livros e filmes e músicas & afins: tem momento certo pra conhecer. Às vezes, a gente vai acabar se deparando com um livro chato, um filme maçante, uma música que causa estranheza. Mas deixa, vai ver era a gente que ainda não tava pronto pra conhecer. Tempos depois, é só tentar de novo. Se continuar chato e maçante e estranho é porque é bosta mesmo.

Sempre tinha ouvido falar de Borges, mas nunca fui atrás pra ler algo dele. Lia matérias sobre Buenos Aires, cidade que quero muito conhecer um dia, e lugares que ele frequentava, com o lugar dele lá guardado ainda, e fotos dele nas paredes. Uma citação aqui, outra ali, e só. Até que um dia, tô na  faculdade com as entranhas em chamas de tanto ódio, e com fome, e sem dormir. Não posso voltar pra casa porque tenho que pegar o contrato de estágio assinado pela faculdade e levar pro outro lado da cidade, pra entregar na porra da empresa. Não era nem 11h da manhã, mas só iam me devolver o contrato assinado depois das 13h. Daria um rolê no shopping, mas não tinha dinheiro. Fui pra biblioteca, pras estantes onde estudantes de Direito não vão: "ficção". Mario Vargas Llosa, hoje não. Gabo, já li tudo. Jorge Luis Borges, "Obra Completa". Dois volumes de mais de 700 páginas cada. E foi assim que nos conhecemos.

Folheando, caí numa crônica sobre sonhos. Ele falava de um violinista italiano fodão (Giuseppe Tartini, thanks Google) que compôs uma de suas obras mais famosas porque sonhou com a melodia. Na verdade, ele conta que sonhou que o Diabo era escravo dele e tocava essa música. Acordou e compôs "Il Trillo del Diavolo". 


Foi o suficiente pra que eu me dedicasse à leitura do livro até as 13h, como quem conhece um amante em potencial e conversa e ri e se dá tão bem logo de cara que não consegue se despedir. Na volta às aulas (dias depois, já que voltei às aulas só semana passada), a primeira coisa que fiz foi voltar à biblioteca, devolver os livros de Direito Constitucional e pegar o "Obras Completas". As crônicas pelas quais me apaixonei estão no volume 2, mas peguei o volume 1 pro caso de amor durar mais.

O tempo virou, o bolo de chocolate acabou, o dia amanheceu. Hora de tentar dormir.

Antes de dormir, vou ler a Lei dos Tóxicos da alienação parental da Maria da Penha de San José da Costa Rica. Mas vou ouvir o Diabo e reler meu poema favorito do Borges porque esse post era pra isso.

AUSÊNCIA

Hei de levantar a vasta vida
que ainda agora é teu espelho:
cada manhã hei de reconstituí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me aguardavas,
palavras daquele tempo,
eu terei que quebrá-las com minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei minha alma
para que não veja tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e desapiedada?
Tua ausência me rodeia
como a corda à garganta.
O mar no qual se afunda.


Porra, Borges...


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na tôrre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se tôda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na tôrre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par....
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens                   
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O sonho acabou (?)

Vi esse texto da Amarilis Lage de Macedo já faz um tempo na página do Alexandre Versignassi. Vale a pena ler. Acredito que é uma sensação pela qual todo mundo passou, passa ou vai passar na vida.


"Explica essa, Susan Miller
Ou
O primeiro corte é sempre o mais profundo

“Susan Miller was right.” É isso o que todo mundo diz, e quem sou eu para dizer que não? Bem que ela falou que o período entre os dias 9 e 23 de março seria especial para os leoninos, em termos profissionais. Algo a ver com a presença de Vênus, Mercúrio e Marte no setor de carreira e reputação. “Estou muito feliz em contar para você que Marte estará em conjunção com o Sol, dando a você coragem, determinação e direcionamento”, disse Susan. “Isso significa que maio será o melhor mês de 2013 para seu progresso na carreira.” Então, no dia 23 de maio, às 12h23, meu chefe me chamou para a saleta de reuniões e, com os olhos cheios d’água, comunicou que haveria um corte gigantesco na empresa e que meu nome estava na lista.
É estranha a tranquilidade que toma conta da gente nessas horas. Uma espécie de nirvana, causada pela beleza da compreensão: as peças vão se juntando – uma conversa no corredor, as longas reuniões, a angústia no olhar de alguém – e a imagem se forma diante de seus olhos com tanta clareza que parece uma pomba branca voando em câmera lenta com aquela luz de Deus ao fundo.
Aí você caminha até a sua mesa, ainda pisando nas nuvens, desliga o computador, pega as suas coisas e se dirige ao elevador, como se estivesse apenas indo almoçar. Um grande senso de praticidade – daquele tipo que sempre nos falta no dia a dia – se instala como uma pedra. E ele se resume, em linhas gerais, a deixar tudo para amanhã.
Passar no RH para assinar os papéis – amanhã. Arranjar uma caixa de papelão para guardar os badulaques (incluindo uma estimada caneca de “Rock of Ages”) – amanhã. Encarar os abraços dos amigos e sorrir quando eles disserem que vai dar tudo certo – amanhã.
Resolvida essa parte, resta uma tarde inteira que, infelizmente, não pode ser transferida para o dia seguinte. Todas as fantasias de vagabundagem que rondavam sua cabeça diante do computador perdem, automaticamente, o encanto. A mais óbvia – ir ao cinema – exigiria uma inalcançável capacidade de concentração. Começar a ler “Guerra e Paz”, também. Ver televisão remete a um derrotismo precoce, e caminhar à toa por aí está fora de cogitação – você não quer olhares piedosos em sua direção. Sim, é uma preocupação paranoica, mas já basta lidar com o espanto no rosto do porteiro ao ver você chegando em casa no início da tarde.
Em casa, você conta pela primeira vez o que aconteceu. E, ao ouvir as palavras que saem de sua própria boca, sente como se também estivesse recebendo a notícia.
“Fui demitida.” E, antes que sua competência venha a ser questionada. “Foi um corte. Disseram que vai chegar a 50 pessoas. Que vai ser um massacre.” Saber que não estou sozinha, que há outras vítimas, traz um conforto meio deslocado, que não se ajeita direito no coração.
“Você só pode estar brincando.”
“Não estou, não.”
“Mas eu não posso acreditar!”
E ali estão elas, todas as emoções que fugiram de você, borbulhando no corpo de outra pessoa: incredulidade, raiva, mágoa, medo, ansiedade. Não seria bom já mandar o currículo para algum lugar? Devemos cancelar a TV a cabo e a faxineira? Quanto dinheiro você tem no banco? Como vai contar para a sua mãe?
Nessa hora, você se lembra de Susan Miller e, com o mesmo esforço que ela dedica à interpretação dos astros, tenta interpretar melhor as palavras da previsão. A coisa sai mais ou menos assim:
“Não se preocupe. Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que isso foi um sinal. Um bom sinal. Alguma coisa muito melhor está a caminho para mim, e a vida está criando as condições necessárias para que essas novidades ocorram, entende?”
Silêncio.
“Bom, tomara que seja isso mesmo.”
Silêncio.
Lá pelo fim do dia, vem uma crise de choro e a sensação de febre, seguida por um estado de torpor. E as coisas vão se intercalando até que, soterrada por 82 camadas de choro e catatonia, você começa a pensar no que vai fazer dali para frente.
Sobrevoando os pensamentos, como um abutre, circula uma lembrança. É a história de uma pessoa próxima cujo último emprego formal foi em meados dos anos 90. Desde então, ela se dedica a coisas que parecem emprego, mas não são: participar de associação de moradores, promover abaixo-assinado na internet e enviar longos comentários para as seções de cartas dos jornais. De que modo essa pessoa paga suas contas ou de onde tira a energia para levantar da cama de manhã, é algo que eu nunca soube. E assim se passaram quase vinte anos.
É preciso agir, mas como? A coisa não anda fácil para ninguém, ainda mais para aqueles que, movidos por uma certa mistura de responsabilidade política, curiosidade antropológica e veleidade artística, saíram da faculdade com um diploma de jornalismo. “Não há profissão mais fascinante que a de jornalista, e não há personagens mais românticos que os jornalistas”, diz Graciela Mochkofsky na Piauí deste mês.
Dez anos de estrada foram suficientes para ver jornais e revistas colocando em ação todos os tipos de plano para evitar o naufrágio: blogs, brindes, concursos culturais, festas, prêmios, premières, pesquisas, projetos gráficos em cima de projetos gráficos, fotos maiores, fotos menores, textos menores, textos maiores...
E o número de leitores só diminuía – o que não deixa de ser admirável quando se leva em conta todo o tempo, paciência e firmeza que são necessários para cancelar a assinatura de um jornal ou revista. Já tentei várias vezes, e só tive motivação suficiente para ir até o fim no caso da Veja.
Para minimizar o prejuízo, de tempos em tempos algum veículo anuncia seu passaralho, e a notícia voa pelas redações a todo vapor. Quem sobrevive logo sai a campo ajudando a reerguer os feridos, com convites para café e ofertas de freelas. Até que chega a sua vez, e o desemprego deixa de ser um dado estatístico (cerca de 6%, segundo o IBGE) para fazer de você uma mocinha de novela mexicana.
Conseguir uma vaga em outra redação, no atual cenário, parece improvável e, mais que isso, meio assustador. Seria como voltar (de novo) para os braços daquele cara excitante, inteligente, mas completamente inseguro, que não sabe o que quer da vida e que, depois de meses envolvendo você nos problemas que ele tem com a mãe, com o vizinho, com o mecânico e com a faxineira, some sem maiores explicações.
Mantendo a analogia, viver como freelance equivale a passar pela mesma situação, com dez caras diferentes (incluindo aquele que ainda não definiu sequer se está de olho em homens ou em mulheres), tudo ao mesmo tempo agora.
Minha mãe quer saber quando vou casar na igreja e ter filhos, ou seja, quando foi acolher sua sábia sugestão de prestar um concurso público e alcançar a famosa estabilidade. Sem muita empolgação, às vezes concordo em dar uma olhada nos editais. Diante da relação de assuntos para a prova, é difícil não lembrar que ela também recomendou, um dia, que eu fizesse faculdade de direito.
Anos atrás, tive aulas de direito internacional com um advogado que se referia ao golpe de 64 como “revolução”. Fazia parte da grade de um cursinho preparatório para o Rio Branco. Uma das dicas marcantes que recebi ali foi essa: na redação, escrever o que os avaliadores gostariam de ler – e não necessariamente o que você achava sobre o assunto. Não é todo dia que a gente se depara com uma mistura tão boa de honestidade e hipocrisia, certo?
De todo modo, não cheguei até a fase da redação, e o convite para um novo emprego se sobrepôs aos planos de trabalhar numa embaixada no Oriente Médio. O Brasil perdia, assim, mais uma candidata ao funcionalismo público. Não que eu vá fazer falta – o sonho de milhões de brasileiros é conseguir um cargo (qualquer cargo) no governo. Não o meu.
De pijama no sofá, jantando um resto de bolo de banana, você se dá conta de que também não faz o tipo empreendedor. Lá no guarda-roupa, tem uma caixa cheia de bijuterias que foram feitas para conseguir uma grana extra num momento de aperto e que jamais foram vendidas. É difícil imaginar algo mais constrangedor do que tentar vender alguma coisa para alguém.
Além disso, você também não tem dinheiro para investir no que quer que seja (como um quiosque da Empada Brasil) nem vai conseguir atrair um sócio endinheirado com uma ideia genial. Todas as grandes ideias que você teve já foram reivindicadas por alguém antes, como a pizza de chocolate.
A esperança de pelo menos dormir até mais tarde, até 2018, no mínimo, também não se concretiza. Lá está você, no meio da madrugada, com os olhos no teto, pensando na morte da bezerra. E agora, Susan Miller? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Agora você que se vire para salvar sua reputação de astróloga renomada internacionalmente. Quanto a mim, vou levantar, fazer um café e ler o jornal. Pelo menos isso: agora vou ter tempo para ler o jornal, do começo ao fim. E até checar, com uma pontada de ironia e ansiedade, o que o horóscopo me reserva para os próximos dias.
"
O texto da Graciela Mochkofsky ao qual a Amarilis se refere é esse aqui. Belíssimo texto, por sinal. Tava falando com a Ana sobre esse idealismo que jornalista tem, e que, pelo menos no nosso caso, não ficou pra trás nos primeiros semestres de curso, ou nos primeiros contatos com a realidade da profissão através dos estágios-exploração (pleonasmo?). E esse é o motivo pelo qual o jornalismo mais desistiu da gente que a gente dele: jornalista idealista sofre mais que mulher apaixonada por cafajeste. "A gente não vai voltar pro jornalismo, né, mano?", e eu respondi que não. E a dor com que ela ouviu isso - não sei se acreditando ou não - foi a mesma com a qual eu disse, porque soou melancolicamente definitivo. Porque veio acompanhado de um "e o que a gente faz então?" que ficou subentendido pra nós duas, e que cada uma vai responder a seu modo. 

A verdade é que, com essa crise braba, revistas acabando e tal, não dá pra se ter muita esperança de que conteúdos opinativos de qualidade, e aquele jornalismo literário ou "new journalism" que a gente curte tanto, vá escapar incólume. Talvez, esse estilo seja o primeiro que acabe. Não vende, os textos são grandes, exigem uma certa dose de imaginação do leitor (que não tem tempo nem saco pra devaneios lendo o noticiário de manhã no trem lotado)...Em suma, aquele jornalismo utilidade-pública, ou aquela reportagem que é quase um romance, já era. Vai sobrar, sei lá, a Veja. Argh.

Oremos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A Loucura de Erasmo

"Dizei-me por obséquio: um homem que odeia a si mesmo poderá, acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Será capaz de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio? Só um louco, mais louco ainda do que a própria Loucura, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal opinião. Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao homem, como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e, por conseguinte, de odiar a si mesmo. A natureza, que em muitas coisas é mais madrasta do que mãe, imprimiu nos homens, sobretudo nos mais sensatos, uma fatal inclinação no sentido de cada qual não se contentar com o que tem, admirando e almejando o que não possui: daí o fato de todos os bens, todos os prazeres, todas as belezas da vida se corromperem e reduzirem a nada. Que adianta um rosto bonito, que é o melhor presente que podem fazer os deuses imortais, quando contaminado pelo mau cheiro? De que serve a juventude, quando corrompida pelo veneno de uma hipocondria senil? Como, finalmente, podereis agir em todos os deveres da vida, quer no que diz respeito aos outros, quer a vós mesmos, como, — repito — podereis agir com decoro (pois que agir com decoro constitui o artifício e a base principal de toda ação), se não fordes auxiliados por esse amor próprio que vedes à minha direita e que merecidamente me faz as vezes de irmã, não hesitando em tomar sempre o meu partido em qualquer desavença? Vivendo sob a sua proteção, ficais encantados pela excelência do vosso mérito e vos apaixonais por vossas exímias qualidades, o que vos proporciona a vantagem de alcançardes o supremo grau de loucura. Mais uma vez repito: se vos desgostais de vós mesmos, persuadi-vos de que nada podereis fazer de belo, de gracioso, de decente. Roubada à vida essa alma, languesce o orador em sua declamação, inspira piedade o músico com suas notas e seu compasso, ver-se-á o cômico vaiado em seu papel, provocarão o riso o poeta e as suas musas, o melhor pintor não conquistará senão críticas e desprezo, morrerá de fome o médico com todas as suas receitas, em suma Nereu aparecerá como Tersites, Faão como Nestor, Minerva como uma porca, o eloqüente como um menino, o civilizado como um bronco. Portanto, é necessário que cada qual lisonjeie e adule a si mesmo, fazendo a si mesmo uma boa coleção de elogios, em lugar de ambicionar os de outrem. Finalmente, a felicidade consiste, sobretudo, em se querer ser o que se é. Ora, só o divino amor próprio pode conceder tamanho bem. Em virtude do amor próprio, cada qual está contente com seu aspecto, com seu talento, com sua família, com seu emprego, com sua profissão, com seu país, de forma que nem os irlandeses desejariam ser italianos, nem os trácios atenienses, nem os citas habitantes das ilhas Fortunadas. Oh surpreendente providência da natureza! Em meio a uma infinita variedade de coisas, ela soube pôr tudo no mesmo nível. E, se não se mostrou avara na concessão de dons aos seus filhos, mais pródiga se revelou ainda ao conceder-lhes o amor próprio. Que direi dos seus dons? É uma pergunta tola. Com efeito, não será o amor próprio o maior de todos os bens?"

Erasmo de Rotterdam - Elogio da Loucura


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Insônia e Bukowski

Anteontem (ou ontem, sei lá; fim de feriado prolongado, passei tanto tempo hibernando que perdi a noção de dias, horas...), num post no Facebook daquele site que já citei aqui, o Zen Pencils, vi um poema do Bukowski que achei bacana. Na postagem, falavam de vídeos do próprio Bukowski e do Tom Waits recitando os poemas, e achei esse aqui:



Laughing Heart

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.

it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.

you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

E depois ainda tem o lindo do Bono Vox recitando "Roll the Dice":

if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.


if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.


go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.

if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.

you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.

do it, do it, do it.

all the way
all the way.

you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.


Embora a Ana sempre falasse muito de Bukowski, nunca li nada dele. Sei lá por quê. Vou atrás de livros dele e depois conto aqui o que achei.

2008 all over again 

E lá vamos nós de novo: aquela tristeeeeza e vontade zero de sair da cama.

E você não consegue ler nem assistir nada porque não consegue se concentrar. Então, só te resta dormir. Mas quando você dorme, tem sonhos bizarros e um sono agitado, acorda assustada várias vezes...

Não tô escrevendo muito por aqui porque meus horários andam bagunçados novamente. Férias, insônia, tô "monotemática" demais...O de sempre. E como sempre, vou juntando coisa, juntando aba aberta nos navegadores com coisa que quero falar aqui quando tiver tempo e vontade. Tempo eu até tenho, mas vontade...

Aí tô pensando em tratar de cada assunto num post e programar as postagens pra serem publicadas diariamente, ao invés de escrever posts gigantes. Fica meio robotizado assim, mas paciência. É só pro blog não ficar abandonado. Acredito que no próximo fim de semana vou ter paciência pra mexer no layout, nos marcadores, no blog todo, dar uma repaginada. Mas por enquanto...

Vou ter que levantar daqui a pouco pra ir trabalhar e tô aqui pensando se não é melhor falar logo que arrumei outro estágio (é, arrumei: começo lá no próximo dia 18) pra rescindir o contrato e ficar em casa esses dias. Não quero mais ir. Mas ficar em casa também não me faz bem, então sei lá. Dos males o menor.

E é nesse ritmo de despedida-ansiedade-medo que vou me entupindo de analgésicos porque essa enxaqueca chata não me deixa. Fico aqui relendo trechos de García Márquez e Saramago enquanto ouço Stones. Porque, olha, se não fosse essa esperança besta de ainda ver um show dos Stones, sei lá o que seria de mim...

Tá, eu juro que tava procurando um vídeo de uma música dos Stones pra colocar aqui, mas achei isso e não resisti:


Ai ai..Só a internet pra me fazer rir tendo só 3 horas de sono (que sono?) pela frente.